Ilha Trinity

Em 21 de outubro chegamos à ilha Trinity, na Península Antártica. Fiz o meu turno na madrugada, da meia-noite às três da manhã, na expectativa de encontrar os primeiros icebergs que não apareceram. A travessia do Drake foi extremamente tranqüila, ao contrário do que contam os livros de travessias Antárticas. O Drake ou a passagem de Drake é o pedaço de mar que fica entre a Terra do Fogo e a Península Antártica, onde se encontram os oceanos Atlântico e Pacífico. Essa região é conhecida pelos fortes ventos e pelas freqüentes tempestades.

Hoje, graças à tecnologia de transmissão de dados via satélite, tem-se a previsão do tempo e das condições de mar e do vento, atualizadas com grande precisão. Uma viagem entre os continentes pode ser programada entre janelas de mau tempo.

Acordei por volta de 10 horas da manhã, com o ruído de um forte impacto no casco do barco. Achei que fosse o Mike, brincando de quebrar icebergs. Outros impactos ocorreram depois do primeiro. Saí da cabine, subi ao convés e tive a primeira visão do continente branco. E percebi um alvoroço anormal nas pessoas que estavam no convés. O barco estava encalhado!

Na tentativa de encontrar um bom ancoradouro, Nick, o capitão, levou o barco para uma área onde a profundidade não passava dos dois metros, encostando o casco do barco no fundo pedregoso da baia.  As primeiras tentativas de voltar atrás apenas pioraram a situação e para complicar, a maré estava vazando. Foram cerca de três horas de tentativas, até perceber que teríamos que esperar pela próxima maré cheia, o que ocorreria apenas na manhã do dia seguinte. 

O veleiro encalhado foi amarrado às pedras a cerca de trezentos metros do ponto de encalhe. Em seguida, Robert e Mike saíram como bote inflável para procurar um canal que permitisse a retirada do barco daquele local na maré alta. Com o intuito de aliviar o peso do barco, descarregamos cerca de duas toneladas de material que foram levados a uma ilhota próxima, onde fica uma cabana abandonada, de bandeira argentina, e uma colônia de pingüins. Um trabalho danado, pois toda a carga pesada do barco foi descarregada.

Na manhã do segundo dia, acordamos na expectativa da chegada da maré alta, quando tentaríamos desencalhar o barco. Por volta de 10 horas da manhã, com os motores acionados e tracionando os cabos amarrados à ilhota com o auxílio das catracas hidráulicas, conseguimos fazer o barco flutuar de volta para o canal. Um grande alívio para todos nós. Não notamos danos significativos no barco, a não se por alguns dentes nos hélices. Contornamos a ilhota pelo canal e ancoramos do outro lado em uma profundidade de 20 metros. E então passamos boa parte do dia trazendo de volta para o barco, todo o material que havia sido descarregado.

Passamos essa noite na Ilha Trinity, ancorados na baía, com ventos de cerca de 30 nós e uma tempestade de neve, realizando turnos para antecipar qualquer movimentação anormal do barco. Na manhã do dia seguinte, partimos para a Baía Charcot, na Península Antártica, onde seria realizada a primeira expedição dos jovens exploradores.

Jean-Baptiste Etienne August Charcot (1867-1936) foi um médico francês, que fez diversas incursões à Antártica no início do século passado. Como explorador pioneiro, nomeou diversas ilhas, baías e portos no oeste da Península Antártica. Morreu em 1936, quando o seu barco naufragou na distante costa da Islândia durante uma violenta tempestade.

No fim da tarde do mesmo dia, Mike e os jovens exploradores, Henry, Vincent, Nora, Maria, Caroline e Alexandra, acompanhados dos guias de montanha e dos fotógrafos escalaram uma colina na encosta da baía, montaram acampamento e dormiram em barracas. Nós permanecemos no barco, ancorado na baía, realizando turnos durante a noite.

E aguardamos a manhã seguinte para seguir viajem.

Aguardem mais aventuras aqui no Blog Besni Sustentável!

Até lá!

Claudio

 

Na Ilha dos Pinguins, com o barco encalhado de fundo

Baia Charcot, coalhada de gelo

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Autor: Pangaea

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março 17. 2010 13:36