A conversa com o Mike foi direta e franca. Ele me disse que precisava de um médico e que tinha pretendentes, mas que nenhum deles tinha a disponibilidade ou a experiência necessária. A porta estava aberta desde que eu estivesse disposto a me dedicar integralmente ao projeto. E ele tinha pressa. Estávamos em meados de março e eu teria que estar disponível a partir de junho, para os eventos promocionais que aconteceriam na Europa. Topei.
A seqüência de eventos desencadeada a partir desse dia foi oportuna e cronologicamente precisa. O primeiro passo foi obter a autorização do meu pai, que além de pai é também meu chefe. No sábado seguinte, saímos para velejar e ao retornar para a marina, mostrei a ele o barco e disse que iria percorrer o mundo naquele barco. Para minha surpresa ele falou que faria o mesmo, se tivesse a oportunidade (talvez ele tenha achado que eu não estivesse falando sério!).
O próximo passo foi procurar um patrocinador que garantisse a manutenção da minha estrutura no Brasil, uma vez que teria que pedir demissão de meus empregos. Na segunda-feira, combinei tomar um café com o meu amigo (e paciente) João Carlos Behisnelian, na Doceira Dulca do Hospital Sírio Libanês. Os estreitos laços de amizade e o respeito que tenho pela família Behisnelian e o alinhamento da BESNI com programas de sustentabilidade foram fundamentais para que chegássemos rapidamente a um acordo.
Autorização familiar e patrocínio garantido! Agora faltava elaborar a lista de todo o resto! Empregos, consultório, contas bancárias, casa da praia, barco, pacientes, apartamento em SP e o mais difícil de tudo, obter autorização da namorada! Decidi que dez anos de plantão no Pronto Atendimento do Hospital Sírio Libanês eram suficientes e pedi demissão.
Obtive apoio do chefe do serviço, Dr. Fernando Ganem e da direção do Hospital, com o qual mantenho estreito vínculo afetivo e profissional. Solicitei licença do meu cargo de chefia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. O Professor Samir Rasslan, diretor do Serviço de Cirurgia Geral, embora reticente, entendeu as minhas razões e me deu a benção.Vendi a casa da praia (sei que vou me arrepender) e comprei o apartamento em que morava de aluguel em São Paulo.
Demiti a minha secretária Eliane (mas ela não perdeu o emprego) e encerrei temporariamente as atividades no consultório. Conversas prolongadas com pacientes especiais, reuniões com gerentes de banco, contadores, secretárias, reuniões na BESNI, festas de despedida com os amigos e familiares e quase tudo pronto. Deixei o meu barco no Guarujá aos cuidados do meu indispensável marinheiro, o José Bernardino da Silva, Roberto como é conhecido e iniciei as negociações com a minha namorada, a Aline.Em fevereiro deste ano, depois de anos namorando, decidimos morar juntos.
Em março, eu decidi que partiria em junho. Tendo participado de todo o processo e de minhas decisões, ela entendeu que participar do projeto seria uma oportunidade única. E ela ainda teria que administrar o apartamento, pagar as contas e fazer o meio de campo com a BESNI. Em contrapartida, teria a oportunidade de me encontrar pelos cantos do mundo. Eu a amo por isso.
Enquanto organizava minha vida no Brasil, tive poucas notícias do que acontecia no barco. Apenas alguns relatos e fotos que obtive no site oficial do Mike (www.mikehorn.com). Soube que o barco já estava na Europa, que o batismo em Mônaco com a presença do Príncipe Albert, tinha sido um sucesso e que o barco iria para a Espanha. Mas, sem nenhum contato pessoal com o Mike, eu já estava ficando apreensivo. Lembrei do e-mail do Felipe, um dos brasileiros que havia partido do Brasil como tripulante. Escrevi uma mensagem e ele respondeu. Respondeu falando que estava em Londres e que já tinha abandonado o projeto por razões pessoais. Da mesma forma, outros dois brasileiros, além do fotógrafo e do capitão, também estavam fora. Preocupante para mim, pois a essa altura já tinha tomado algumas decisões irreversíveis e teria que tocar adiante.
Telefonei para o Mike e perguntei se o nosso compromisso continuava em pé. Ele me respondeu afirmativamente e pediu para que eu entrasse em contato com sua esposa Cathy, na Suíça, solicitando a ela que organizasse a minha viagem para a Europa. Faltava definir quando e aonde, pois o cronograma não estava definido. Já estávamos no final de abril, quando finalmente acertamos a minha partida para o dia 10 de junho. Destino, Lorient, no noroeste da França.
E continua no próximo capítulo.
Acompanhe as nossas aventuras e desventuras a bordo do Pangaea aqui no Blog de Sustentabilidade da BESNI.
Um abraço, Dr. Claudio