Antártica

Pela manhã, partimos novamente, dessa vez em direção à Ilha Deception, localizada a meio caminho entre a Ilha Trinity e a Ilha King George. A ilha Deception é uma ilha vulcânica em forma de anel, com uma pequena abertura por onde sopram ventos violentos, que dificultam a entrada na baía. À esquerda de quem entra na no canal, notam-se os restos do naufrágio do baleeiro inglês Southern Hunter, que afundou ali em 1957.

A ilha caracteriza-se por suas praias negras de pedras vulcânicas e pelas diversas estações baleeiras abandonadas. No período de 1906 a 1930 foi o porto de processamento de milhares de baleias caçadas na região. A atividade baleeira diminuiu a partir da década de 30 com a queda do preço do óleo de baleia e com o surgimento de novas tecnologias de processamento de carcaças. A intensa atividade vulcânica da ilha, com erupções violentas entre 1967 e 1970, causando a destruição de algumas bases, forçou a evacuação definitiva da ilha.

Chegamos à tarde na Ilha Deception, ancoramos o barco na Baía dos Baleeiros e desembarcamos.  Caminhando pelas areias negras, encontram-se remanescentes dos tanques de processamento, ossos de baleias, pequenos barcos baleeiros encalhados, um cemitério e alguns pingüins e focas. 

Na beira do mar, logo abaixo da areia, brota água termal com temperatura acima de quarenta e cinco graus. Com apenas alguns metros de diferença, pode-se tomar um banho gelado na água do mar e um banho escaldante nas águas termais. E foi o que fizemos no dia seguinte.

Da Ilha Deception, partimos no dia 25 de outubro, pois no dia 26 os jovens exploradores retornariam para Ushuaia de avião. Na manhã do dia seguinte, ancoramos na Baia Ardley, na ilha King George. Nessa ilha está localizada grande parte das bases de pesquisa dos países do Tratado Antártico. É lá que fica a base brasileira Comandante Ferraz, que não tivemos a oportunidade de conhecer.

O aeroporto fica próximo à base chilena Puerto Bahia Fildes. Na realidade é apenas uma pista de pouso semi-congelada, que recebe vôos fretados do continente sul-americano. Ao lado da base chilena fica uma base de pesquisas russa. O convívio entre os habitantes das bases é cooperativo e pacífico. Nas duas bases fomos bem recebidos, como costumam ser todos os eventuais visitantes. Na base russa, compramos gasolina para o inflável e com os chilenos, visitamos uma colônia de pinguins onde são conduzidos experimentos científicos.

No avião em que partiram os jovens YEP, chegaram convidados para outro evento promocional do champanhe Mumm, que duraria dois dias. Partimos da ilha King George com 25 pessoas a bordo e retornamos para Deception Island e para Charcot Bay. Retornamos na manhã do dia 28, esperando ansiosos por um barco só nosso, pois a vida estava complicada com tanta gente zanzando a bordo!

Um problema inesperado! O tempo fechou e a previsão era de que o avião só poderia buscá-los dali a dois ou três dias. Com os convidados angustiados e a tripulação aflita, Mike decidiu promover uma inesperada festa a bordo. Todo o estoque de bebidas alcoólicas foi consumido e nos divertimos o suficiente para esquecer de que talvez tivéssemos que conviver como sardinhas em uma lata por alguns dias. Felizmente, na manhã do dia 28, uma janela de bom tempo permitiu que o avião retornasse para buscá-los. 

Agora começará a grande aventura do Mike. Acompanhe os capítulos seguintes…


Saudações, Claudio

Baleeira enterrada em areia vulcanica

 

Um banho nas águas termais da Ilha Deception

 

A Partida dos YEP

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Ilha Trinity

Em 21 de outubro chegamos à ilha Trinity, na Península Antártica. Fiz o meu turno na madrugada, da meia-noite às três da manhã, na expectativa de encontrar os primeiros icebergs que não apareceram. A travessia do Drake foi extremamente tranqüila, ao contrário do que contam os livros de travessias Antárticas. O Drake ou a passagem de Drake é o pedaço de mar que fica entre a Terra do Fogo e a Península Antártica, onde se encontram os oceanos Atlântico e Pacífico. Essa região é conhecida pelos fortes ventos e pelas freqüentes tempestades.

Hoje, graças à tecnologia de transmissão de dados via satélite, tem-se a previsão do tempo e das condições de mar e do vento, atualizadas com grande precisão. Uma viagem entre os continentes pode ser programada entre janelas de mau tempo.

Acordei por volta de 10 horas da manhã, com o ruído de um forte impacto no casco do barco. Achei que fosse o Mike, brincando de quebrar icebergs. Outros impactos ocorreram depois do primeiro. Saí da cabine, subi ao convés e tive a primeira visão do continente branco. E percebi um alvoroço anormal nas pessoas que estavam no convés. O barco estava encalhado!

Na tentativa de encontrar um bom ancoradouro, Nick, o capitão, levou o barco para uma área onde a profundidade não passava dos dois metros, encostando o casco do barco no fundo pedregoso da baia.  As primeiras tentativas de voltar atrás apenas pioraram a situação e para complicar, a maré estava vazando. Foram cerca de três horas de tentativas, até perceber que teríamos que esperar pela próxima maré cheia, o que ocorreria apenas na manhã do dia seguinte. 

O veleiro encalhado foi amarrado às pedras a cerca de trezentos metros do ponto de encalhe. Em seguida, Robert e Mike saíram como bote inflável para procurar um canal que permitisse a retirada do barco daquele local na maré alta. Com o intuito de aliviar o peso do barco, descarregamos cerca de duas toneladas de material que foram levados a uma ilhota próxima, onde fica uma cabana abandonada, de bandeira argentina, e uma colônia de pingüins. Um trabalho danado, pois toda a carga pesada do barco foi descarregada.

Na manhã do segundo dia, acordamos na expectativa da chegada da maré alta, quando tentaríamos desencalhar o barco. Por volta de 10 horas da manhã, com os motores acionados e tracionando os cabos amarrados à ilhota com o auxílio das catracas hidráulicas, conseguimos fazer o barco flutuar de volta para o canal. Um grande alívio para todos nós. Não notamos danos significativos no barco, a não se por alguns dentes nos hélices. Contornamos a ilhota pelo canal e ancoramos do outro lado em uma profundidade de 20 metros. E então passamos boa parte do dia trazendo de volta para o barco, todo o material que havia sido descarregado.

Passamos essa noite na Ilha Trinity, ancorados na baía, com ventos de cerca de 30 nós e uma tempestade de neve, realizando turnos para antecipar qualquer movimentação anormal do barco. Na manhã do dia seguinte, partimos para a Baía Charcot, na Península Antártica, onde seria realizada a primeira expedição dos jovens exploradores.

Jean-Baptiste Etienne August Charcot (1867-1936) foi um médico francês, que fez diversas incursões à Antártica no início do século passado. Como explorador pioneiro, nomeou diversas ilhas, baías e portos no oeste da Península Antártica. Morreu em 1936, quando o seu barco naufragou na distante costa da Islândia durante uma violenta tempestade.

No fim da tarde do mesmo dia, Mike e os jovens exploradores, Henry, Vincent, Nora, Maria, Caroline e Alexandra, acompanhados dos guias de montanha e dos fotógrafos escalaram uma colina na encosta da baía, montaram acampamento e dormiram em barracas. Nós permanecemos no barco, ancorado na baía, realizando turnos durante a noite.

E aguardamos a manhã seguinte para seguir viajem.

Aguardem mais aventuras aqui no Blog Besni Sustentável!

Até lá!

Claudio

 

Na Ilha dos Pinguins, com o barco encalhado de fundo

Baia Charcot, coalhada de gelo

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A passagem

Atracamos o barco ao píer da marina Shelter Bay, onde enchemos o tanque de combustível, comemos cheeseburgers e lavamos as roupas. Através de um agente contratado, conseguimos a permissão para atravessar o canal no fim do dia. A travessia do canal é necessariamente negociada através de um agente portuário e depende do tráfego de navios. Dependendo da época pode demorar dias, mas fomos favorecidos pela quebra de um navio que deveria passar pelo canal naquela noite.

O canal do Panamá comunica os oceanos Atlântico e Pacífico no ponto mais estreito das Américas. Foi construído no início do século pelos americanos, que o exploraram comercialmente até 1999. Ao contrário do que se imagina, o canal tem um percurso oblíquo, de noroeste para sudeste, de modo que quem penetra no canal pelo oceano Atlântico o faz mais a oeste do que a sua abertura no oceano Pacífico, localizada mais ao leste. A distância de um oceano ao outro é de cerca de oitenta quilômetros.

Existem três comportas de cada lado, que corrigem o desnível de 45 metros, existente entre os oceanos e o lago artificial, Lago Gatun, que fica no meio do canal. A abertura da cada comporta causa uma elevação ou descida de 15 metros. Os navios são amarrados a pequenas locomotivas, que os arrastam ao longo das comportas. No nosso caso, nos deslocamos com nossos motores.

Naquela noite, fomos elevados ao nível do Lago Gatun, onde passamos a noite, ancorados. Na manhã seguinte descemos novamente ao nível do mar e chegamos ao oceano Pacífico!

Na costa pacífica localiza-se a cidade do Panamá, capital da república. Dirigimos-nos para a Marina Flamenco, onde ficaríamos ancorados nos próximos dias. No dia 17 chegou o Robert. Finlandês, experiente em regatas e na manutenção de embarcações, Robert veio para ocupar o cargo de engenheiro do barco. Finalmente tínhamos alguém para se preocupar com motores, óleos e instalações elétricas. Sempre de bom humor e às vezes um pouco atrapalhado, mas sempre preparado para uma nova roubada!

E no dia 18 chegou a minha Aline. Conforme prometido no Brasil, solicitei ao Mike autorização para convidar a Aline para participar conosco de uma travessia. Ela nos encontraria no Panamá e iria até Ushuaia. Toda feliz, ela chegou ao aeroporto, carregada de filtros de combustível e teve que explicar aos agentes aduaneiros, que era apenas uma encomenda para o barco!

E então, com o barco pronto, anti-congelante para a Antártica a bordo, passaportes carimbados e uma namorada, partimos do Panamá no dia 19.

Acompanhem nossas aventuras e desventuras a bordo do Pangaea!

Abraços,

Dr. Claudio

 

 

O canal do Panamá. O Oceano Atlântico está a esquerda e o Pacífico à direita.

As comportas de Miraflores se abrem.

 

Robert, destruindo alguma coisa.

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Uma passadinha em Nova Iorque

... no  dia 15 de agosto peguei o avião em Guarulhos, destino final Londres, com escala em Madrid. Cheguei a Londres no dia 16. Nova via crucis até South Hampton: ônibus até Woking., trem para South Hampton, ônibus para o porto, ferry-boat para Hythe, um outro trenzinho até a estação de Hythe e mais uma caminhada de um quilômetro, e pronto. Estava de volta ao Pangaea.

O barco estava de ponta cabeça, uma bagunça, muito serviço para fazer e o pior, com a partida programada para dali a cinco dias. Pelo menos a maioria dos reparos importantes estava concluída, exceto pela quilha, que jazia no cais do porto.

Algumas novidades na tripulação. Andries e o cabeludo Fritz tinham decidido ir embora, por problemas pessoais. Os novos tripulantes eram Nick, o capitão e Celeste, a cozinheira, ambos sul-africanos; Matt, um inglês que entrara no lugar de Andries; Benoit, um marceneiro francês que estava trabalhando no barco e que nos acompanharia até Nova Iorque; e o brasileiro Fabrizio, que chegou no dia antes de nossa partida e que veio para ocupar o posto de primeiro imediato do capitão.

Da tripulação original restavam eu, o Daniel, o Tristan e o Mike. Um alpinista francês, convidado do Mike, o Pierre, completava o grupo. Todos trabalharam duro para colocar o barco em ordem, a fim de partir na data programada.

Conseguimos partir na manhã do dia 21 de agosto. Partimos de Hythe, contornamos a Ilha de Wight e ganhamos o Atlântico Norte. E os primeiros cinco dias foram tempestuosos. Ventos de 30 a 35 nós e uma forte ondulação tornavam a navegação extremamente desagradável. Pierre, o amigo de Mike não saiu da cabine durante toda a primeira semana da viagem.

À medida que nos aproximamos do continente americano, o mar acalmou e Pierre finalmente saiu para tomar um ar. Durante todo o percurso, Mike, auxiliado por Tristan e Benoir trabalharam incansavelmente para concluir alguns serviços de marcenaria, pois em Nova Iorque o barco deveria estar apresentável, para novos eventos promocionais.

A minha maior preocupação durante essa viagem era com relação ao visto para os Estados Unidos, que estava vencido. Mas além de mim, o Daniel, o Fabrizio, o Tristan e a Celeste também não tinham vistos válidos. Discutimos o assunto com o capitão e com o Mike e eles decidiram arriscar.

Na noite de primeiro de setembro, passamos sob a ponte Verrazano, contornamos a Estátua da Liberdade e atracamos o barco na marina North Cove, localizada no sul de Manhattan, a duas quadras do local onde antes existiam as torres gêmeas.

Experiência interessante, chegar em Nova Iorque de barco. A imigração apareceu apenas no dia seguinte. Eles felizmente compreenderam que não éramos imigrantes ilegais e nos forneceram vistos com validade de seis meses.

Em NY, a agenda de eventos estava novamente cheia. Era praticamente impossível permanecer tranqüilo ou trabalhar no barco. Aproveitei para passear e fazer compras. Fomos ao Central Park, Times Square, Quinta Avenida e outros pontos turísticos. Nova Iorque continua sendo apenas um bom local para fazer compras.

Agora a atenção estava voltada para a próxima etapa da viagem. Em outubro começaria a grande aventura e o barco deveria ser preparado para enfrentar o oceano antártico. Fabrizio andava para cima e para baixo com uma lista enorme de equipamentos e materiais para comprar, mas encontrou pouca coisa. Dois candidatos a tripulante para a viagem antártica estiveram no barco, deram vários palpites, fizeram muitas críticas e caíram fora. Daniel resolveu voltar para o Brasil, Benoir ficou por NY e Matt voltou para a Inglaterra. Mike foi para a Suíça para preparar os equipamentos para sua expedição até o Pólo Sul.

No dia 8 de setembro, enchemos os tanques, abastecemos a despensa e, com uma tripulação reduzida – eu, Nick, Celeste, Tristan e Fabrizio – deixamos NY para trás.

Até o Panamá,

Claudio

 

Chegando a Nova Iorque

 

 

Celeste, Matt, Tristan, eu, Benoir e Pierre na Marina North Cove

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Angmagssalik

A Groenlândia é a maior ilha do mundo e pertence ao reino da Dinamarca. A sua população é de cerca de 60.000 habitantes predominantemente de etnia Inuit. E 85% do território é coberto por uma capa de gelo permanente com cerca de três quilômetros de espessura. As poucas cidades estão localizadas no litoral e tem sua economia baseada na pesca.


Angmagssalik é a maior cidade da costa leste da Groenlândia e não passa de um vilarejo com casinhas coloridas. Mas tem um porto, um campo de futebol e hotéis que servem de base para os turistas europeus que visitam a Groenlândia em busca de turismo de aventura. Perto dali, em Kulusuk, fica o aeroporto, que recebe vôos regulares da Europa. Os passageiros que chegam a Kulusuk viajam até Angmagssalik em pequenas lanchas, numa travessia que dura cerca de uma hora.


No verão, o dia nunca escurece. À meia-noite o dia é claro como se fosse cinco horas da tarde, muito estranho para nós que estamos acostumados com um dia claro e uma noite escura. E tem muitos mosquito. São mosquitos grandes, vorazes e que atacam o dia inteiro.

No dia 6 de julho, às 18 horas, chegamos ao porto de Angmagssalik, localizado numa reentrância da baía e atracamos o barco a um cargueiro. A primeira coisa que fizemos foi colocar o inflável na água, pois estávamos todos ansiosos para subir em um dos inúmeros icebergs que flutuavam na baía. E foi o que fizemos.

A viagem até a Groenlândia tinha dois objetivos: testar o barco em um mar gelado e realizar um evento promovido por um dos patrocinadores de Mike, o champanhe francês Mumm. O evento consistia em um almoço oferecido para doze convidados, a realizar-se sobre um iceberg!
A chegada dos convidados estava prevista para dali a dois dias. Nesse intervalo, deveríamos preparar o barco para recebê-los e encontrar um iceberg adequado para a montagem da estrutura. Para auxiliar, Caroline e Martin vieram de avião, chegando no dia seguinte.


A costa da Groenlândia é cheia de reentrâncias, chamadas fiordes, que constituem canais navegáveis rodeados por montanhas permanentemente nevadas. Entre as montanhas escorrem imensos rios de gelo que deságuam nos fiordes.  À medida que as geleiras deslizam em direção ao mar, o gelo compactado se fragmenta em imensos blocos que são lançados ao mar, formando os icebergs.


Encontram-se icebergs de todas as formas e tamanhos. No mar, eles viajam centenas de quilômetros à deriva, e derretem à medida que alcançam águas mais quentes. A maior parte do bloco de gelo fica submersa e constitui um risco para as embarcações despreparadas, cujo casco pode ser danificado no caso de colisão.

Logo encontramos um iceberg adequado para a realização do almoço. Localizava-se num fiorde próximo ao porto, não era muito alto e tinha a superfície plana.  Perfeito para desembarcar o pessoal em segurança e garantir que o barco ficaria preso ao iceberg, durante o almoço.


No fim desse dia, levamos o barco até o aeroporto de Kulusuk, para buscar os convidados. Na saída do aeroporto, um grande susto. O skipper, entretido com os convidados se distraiu e colidiu com um grande bloco de gelo, causando um forte impacto no leme que foi projetado para cima e atingiu o casco do barco inflável, danificando-o significativamente. Mas sem maiores transtornos. 

Acompanhe nossas aventuras e desventuras aqui no Blog Besni Sustentável!

Abraços,

Dr. Claudio
 

O porto e a baía de Angmagssalik com os pequenos icebergs
Navegando entre blocos de gelo

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Iceland ou Greenland?

Navegamos pelo Tamisa a favor da correnteza até o mar, viramos para o norte e entramos no Mar do Norte. No dia primeiro de julho, sempre com tempo bom, vimos as primeiras baleias, que nos acompanharam durante alguns minutos e depois sumiram.


No dia dois de julho, contornamos o Reino Unido tangenciando a Escócia pelo canal das ilhas Orkney e ganhamos o Atlântico Norte. Esse canal é conhecido por apresentar uma correnteza muito forte, que felizmente estava a favor, fazendo que o barco batesse o seu recorde de velocidade, 17,4 nós.


Continuamos sentido noroeste, sempre com mar calmo e vento a favor. O Atlântico Norte é um grande mar vazio.  Em nenhum momento cruzamos com outros barcos. No dia quatro de julho passamos pela Islândia, que deveria chamar-se Groenlândia e vice-versa. A troca deveu-se a um erro cartográfico que acabou sendo aceito e consagrado. Islândia ou Iceland (terra do gelo) é verde e a Groenlândia ou Greenland (terra verde) é coberta de gelo!


A partir da Islândia, a temperatura começou a cair e os dias tornaram-se mais longos. Até as dez horas da noite, o sol ainda brilhava. No dia 5, avistamos o primeiro iceberg e algumas horas depois, chegamos a um labirinto de blocos de gelo flutuantes. O casco do Pangaea é preparado para colidir com pedaços de gelo. Pequenos icebergs podem ser empurrados com a força dos motores, para que se abra um caminho. Foi o que fizemos nessa barreira de gelo.


Superada essa barreira, ganhamos mar aberto novamente. Ao longe já se avistavam os fiordes da Groenlândia. Às 18 horas do dia 6, aos 65 graus de latitude norte, amarramos o barco no porto de Angmagssalik.

Saudações,


Claudio

 

Os primeiros blocos de gelo avistados
Iceland ou Greenland?

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A viagem promocional - Londres

Londres

Partimos de Hamburgo, eu, o Mike, o Daniel, o Alexis, o Andries e o Tristan. Os outros foram embora de avião.

Desde Lorient, notávamos que o porão da garagem do barco enchia de água. Além disso, o piloto automático ficava louco freqüentemente.  Em uma travessia oceânica, quase não se conduz o barco manualmente. O funcionamento adequado do piloto automático é fundamental para o conforto da viagem. Tínhamos, portanto, que bombear a água dos porões em todos os turnos e corrigir o curso do barco, quando o piloto pirava.

Além disso, quando navegávamos contra o vento, notamos uma infiltração de água pelos vidros da sala, com gotejamento de água salgada em cima do computador.  O gerador parava devido ao aporte insuficiente de água e os escapamentos superaqueciam, devido ao constante rompimento dos rotores da bomba de água. Nessa altura, eu não estava muito preocupado, pois o Daniel e o Mike cuidavam de resolver essas panes. Mas a entrada de água nos porões me aborrecia. Como o cronograma da divulgação do projeto era apertado, prosseguíamos adiando esses reparos.

Na tarde de 26 de junho chegamos a Londres, que fica nas margens do tortuoso e despoluído Rio Tamisa. O percurso desde o estuário do rio até Londres é de cerca de quarenta milhas. A navegação pelo Tamisa é complicada, pois além de tortuoso, existe um tráfego intenso de navios e de barcaças de carga. Próximo à região metropolitana, o rio torna-se raso e estreito. A variação da maré e a corrente são intensas, o que pode ajudar ou atrapalhar de acordo com o sentido do percurso. Uma corrente contrária de quatro a cinco nós causa uma redução igual na velocidade do barco.

Amarramos o barco a uma bóia ao lado da Torre de Londres às 19 horas e ficamos aguardando a preamar, para entrar na marina.

A marina St. Katherine’s Dock fica na margem esquerda do Tamisa. É uma das marinas mais antigas de Londres. O nível da água da marina é mantido constante por uma comporta que se abre na maré cheia, para a entrada ou a saída dos barcos. Ao lado da marina, está localizada a Torre de Londres, um antigo presídio, famoso pelas execuções ali realizadas. A ponte que fica ao lado da torre de Londres, chamada Tower Bridge, é especialmente charmosa e duas vezes ao dia as suas duas metades se elevam, permitindo a passagem de barcos menores.

Sempre que chegamos a uma marina, o dia da chegada é de limpeza e organização. Depois de dias navegando o barco fica todo bagunçado. Uma vez que o barco é amarrado ao píer, temos que lavar o convés (que fica cheio de sal), organizar os cabos e as velas, remover o lixo, limpar as cabines, lavar a roupa suja e reorganizar a despensa e as geladeiras. No fim do dia, podemos nos atualizar, checar nossas mensagens eletrônicas e beber uma cerveja.

Em Londres, a agenda de atividades estava lotada. Conferências e visitas com a imprensa, coquetéis para os patrocinadores e muito entra e sai no barco. Novamente não pudemos trabalhar na manutenção do barco e então apenas aproveitamos para passear nas imediações da marina.

Com o barco abastecido e os mesmos problemas, partimos de Londres na manhã do dia 30 de junho. Destino final, Groenlândia. Nessa perna, com duração prevista de seis dias, a tripulação estava composta por Mike, eu, Daniel, Andrei, Alexis e Tristan. Estabelecemos turnos de três horas e eu e o Daniel fazíamos os turnos juntos.

Acompanhem nossas aventuras e desventuras aqui no Blog Besni Sustentável!

Abraços,

Dr. Claudio 

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Um susto e a agradável Hamburgo

Foto aérea do dia da filmagem

 Num determinado momento, com o mar calmo e o vento constante, a Gabriela me pediu para conduzir o barco. Cedi a ela o timão e depois de um minuto sentimos um forte estrondo no casco, enquanto o leme principal do barco era atirado para cima, como se tivéssemos batido em alguma coisa. Não entendi nada, pois a ilha mais próxima estava a cerca de uma milha da nossa posição e não havia nenhuma sinalização visível. Apesar de tudo, o barco seguiu o seu curso e foi mais um susto. Observando as cartas náuticas mais tarde, concluímos que batemos em rochedos submersos. No fim do dia o leme estava intacto e a filmagem, com as cenas aéreas, foi um sucesso.

No dia 19, com o barco abastecido, partimos para Hamburgo, na Alemanha. A tripulação estava composta por Mike, Claudio, Alexis, Andries, Tristan, Dario e Gabriela. Durante as travessias, nos revezamos em turnos de três ou quatro horas. A equipe do turno é composta por duas pessoas, que são responsáveis por conduzir o barco, observar o radar e realizar as mudanças de rumo, por checar o funcionamento dos motores e por manter as velas na posição adequada. Enquanto uma equipe realiza o turno, as outras descansam ou preparam a alimentação e cuidam da limpeza do barco.

Saindo de Lorient, alcançamos as águas frias do Canal da Mancha e nos dirigimos para o Nordeste, passando por várias plataformas de petróleo na costa do Reino Unido. O tráfego de navios é intenso nessa região e a atenção deve ser dobrada. Mais ao norte, próximo da costa dos países baixos, notam-se diversas estações eólicas geradoras de energia em pleno mar. Nessa costa ocorreu a única intercorrência da travessia, um leve encalhe num banco de areia nas águas rasas dos países baixos, sem maiores conseqüências. A travessia durou três dias.

Hamburgo é um importante porto fluvial que fica localizado a cerca de 50 milhas do litoral alemão. O percurso, desde o litoral é todo sinalizado por bóias e não oferece maiores dificuldades, exceto pelo grande número de navios que trafegam pelo canal.

Ficamos quatro dias em Hamburgo. Nesses poucos dias, o fato mais interessante foi quando eu e o Martin (que chegou a Hamburgo de avião) saímos, para procurar filtros de reposição para o motor do barco. As coordenadas do GPS do carro nos levaram à entrada de um edifício, na margem do canal. Demorou a percebermos que o tal edifício era um elevador automotivo que descia o carro abaixo do nível do canal. Saindo do elevador percorremos uma viela subterrânea estreita, com cerca de um quilômetro, que chegava ao elevador do outro lado. Não achamos os filtros e na volta comemos um gostoso sanduíche alemão.

No barco aconteciam visitas e coquetéis para convidados da Mercedes e dos outros patrocinadores, portanto nada a fazer.  Nas primeiras horas da noite de 26 de junho, soltamos as amarras e partimos para o Reino Unido.

Falamos-nos em Londres,

Claudio

 

 

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Inscrições Pangaea

Aos jovens que desejam increver-se no programa Pangaea - YEP

O caminho para acessar o programa YEP é o seguinte:
acesse www.mikehorn.com e clique no icone do YEP community ou entre diretamente no yep.mikehorn.com e torne-se membro do YEP (join now)

No site (www.mikehorn.com), clique em "Enter site" (em vermelho), clique em "Young Explorers" na barra em cima e escolha FAQ-YEP.
Lá está a resposta para a maioria das dúvidas dos que querem registrar-se.

A janela para o envio de novas application forms deverá ser aberta em março. Até lá, acessem o site do Mike e mantenham-se informados!

Obrigado,

Claudio Birolini

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Capítulo 3 - Pangaea - A viagem Promocional: Lorient à Hamburgo

Em Lorient

 Lorient, 11 de junho de 2008. 

São Paulo, marginal parada, aeroporto, choros da Aline, vôo da TAM, Charles De Gaulle em Paris, ligo para a Cathy, espero o Mike, o Mike perdeu o vôo, ônibus para a estação Montparnasse (como eu compro um bilhete de trem nessa estação?). Embarquei no trem para Lorient às seis da tarde e serão mais cinco horas de viagem. Estranho, pois às 11 horas da noite, ainda era dia. Na estação me esperavam o Martin (irmão do Mike), o Alexis e o Vincent.


Fomos para a marina, localizada em uma estação de submarinos abandonada após a guerra. Nessa marina, moram alguns dos mais famosos trimarãs de competição do mundo e nela está localizado o museu de Erik Tabarly, famoso velejador francês que desapareceu no mar após ser atingido pela retranca da vela do barco, à noite, durante um cruzeiro.


Em um píer próximo, estava atracado o veleiro Tara, um monstro de alumínio semelhante ao Pangaea e conhecido por suas viagens à Antarctica. O Tara, anteriormente chamado de Seamaster foi o palco do trágico assassinato de Peter Blake, ocorrido em 2001, próximo a Macapá, durante uma expedição ao Rio Amazonas. Embora pouco conhecido no Brasil, Sir Peter Blake é considerado herói nacional na Nova Zelândia, ao lado de Sir Edmund Hillary, que foi o primeiro alpinista a atingir o cume do Monte Everest.

No dia seguinte, encontrei o Daniel, o único remanescente da tripulação que levou o barco do Brasil para a Europa. O Daniel foi o responsável pela execução das instalações elétricas e hidráulicas, a alma do barco, desde o início. O seu relato da viagem não foi nada animador.


Durante a travessia para a Europa, eles enfrentaram inúmeros problemas, a maioria deles decorrentes de acabamentos feitos às pressas ou de serviços mal executados. Inversão de mangueiras causando superaquecimento dos motores, vazamentos de fluído hidráulico, infiltração de água em áreas vitais, penetração de água salgada nos tanques de combustível, superaquecimento da sala de máquinas, e outros problemas de um barco que não foi testado antes de partir para uma travessia oceânica.


Naturalmente essa seqüência de desventuras criou um clima desfavorável a bordo e acredito que esse tenha sido o principal motivo da desistência dos tripulantes que partiram do Brasil. Problemas a parte, o batismo do barco em Mônaco, com a presença do Príncipe Albert, foi um sucesso. Depois de Mônaco, fizeram escalas em La Ciotat (França) e Barcelona (Espanha), para reparos, instalações e eventos promocionais.


E agora estamos em Lorient. No Pangaea, minha casa nos próximos meses (ou anos?).  Mãos à obra, como posso ajudar? Vamos por partes!
Recém chegado, me propus a ajudar o Daniel. Instalamos válvulas para impedir o retorno de água salgada para os tanques de combustível, limpamos o banco de baterias que tinha sido inundado com água salgada e bombeamos água dos porões. Limpei e organizei a minha cabine privativa, um dos privilégios concedidos pelo Mike, para o médico de bordo.

O Mike chegou no dia seguinte e no outro dia chegaram a sua esposa Cathy e a secretária Caroline, que vieram para preparar os eventos promocionais do projeto, que ocorreriam em Lorient nos próximos dias. Cathy e Caroline, além de organizar os eventos promocionais, compõem o esquadrão de limpeza. Cada vez que o barco é visitado por convidados, o dia anterior é de faxina total! Junto com elas, chegaram o fotógrafo italiano Dario Ferro e sua cameraman Gabriela.

Nesse dia Daniel teve que retornar às pressas para o Brasil, em virtude do falecimento inesperado de sua mãe.  Ele nos encontraria novamente em Hamburgo. Com a partida do Daniel, um inexperiente jovem francês chamado Tristan, que ganhava a vida dando aulas de surf, foi incorporado à tripulação como marinheiro.

As novas velas foram instaladas em Lorient. Até então, o barco havia sido conduzido unicamente com os motores, jamais com as velas. Saímos para testá-las com uma comitiva de 40 convidados, que haviam assistido à conferência do Mike. Felizmente correu tudo bem, as velas foram içadas e o barco velejou de forma satisfatória. Eu tive o privilégio de conduzir o barco, enquanto o Mike entretinha e dava explicações aos convidados.

No dia seguinte o barco deveria estar preparado para uma filmagem promocional, patrocinada pela Mercedes-Benz. Diversos infortúnios ocorreram naquele dia. Para começar, os geradores que comandam toda a parte hidráulica do barco não funcionaram e todas as pesadas velas tiveram que ser içadas manualmente. Um dos carros que conduz os cabos da vela da proa, a genoa, desprendeu-se dos trilhos e foi atirado sobre o convés, como um projétil. Um grande susto, mas felizmente ninguém foi atingido. Mas o pior ainda estava por vir.

Acompanhe nossas aventuras e desventuras a bordo do Pangaea!

Abraços,

Claudio

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Autor: Pangaea

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